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Editorial | Civilização não se mede por sotaque


Os episódios recentes envolvendo o craque Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, não foram casos isolados.

Por Redação Catarinorte
Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026 13:22


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No século passado, especialmente nas décadas de 1940 e 1950, a Argentina cultivava a imagem de ser o país mais europeu da América do Sul. Comparava-se Buenos Aires a Londres, numa tentativa simbólica de se afirmar como extensão cultural do Velho Mundo no hemisfério sul.

Nesse imaginário de superioridade, brasileiros eram chamados de “macaquitos”. Hoje, o insulto ressurge sob outra forma: “monos”. O preconceito atravessa gerações e reaparece, especialmente em momentos de tensão esportiva.

Os episódios recentes envolvendo o craque Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid, não foram casos isolados. Após um golaço, houve tentativa explícita de esconder ofensas racistas cobrindo a boca para impedir a leitura labial — gesto que revela consciência da própria indignidade.

Outro caso emblemático ganhou ampla repercussão: o de uma advogada argentina que, visivelmente embriagada em território brasileiro, passou a ofender garçons com termos racistas e depreciativos. A cena foi registrada e circulou nas redes sociais, causando indignação. O álcool pode alterar o comportamento, mas não cria preconceito do nada — ele apenas remove filtros.

Esses episódios não representam um povo inteiro. Seria injusto e intelectualmente pobre afirmar isso. A Argentina produziu grandes referências culturais, intelectuais e democráticas. Mas fatos como esses expõem algo que não pode mais ser relativizado: a persistência de um racismo estrutural travestido de rivalidade ou arrogância histórica.

A ironia é que o país que um dia se proclamou a “Europa da América do Sul” enfrenta há décadas grave instabilidade econômica, inflação crônica e empobrecimento social. O mito da superioridade civilizatória não resistiu à realidade.

Ainda assim, milhares de argentinos seguem vindo ao Brasil para turismo, lazer e carnaval — para desfrutar justamente da terra que alguns insistem em menosprezar. Vêm aproveitar a hospitalidade, a diversidade cultural e a alegria que fazem do Brasil uma potência simbólica mundial.

Mas a resposta brasileira não deve ser o ressentimento coletivo. O contraponto civilizatório não é o deboche, mas o exemplo.

Civilização não se mede por arquitetura europeia, por sobrenomes italianos ou por discursos de pretensa superioridade. Mede-se pela capacidade de reconhecer a dignidade do outro — sobretudo quando o outro vence, brilha ou simplesmente trabalha.

E quem precisa esconder a boca para insultar já demonstra que perdeu — não no placar, mas na essência.


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