Editorial | O ouro que derrete preconceitos
A vitória de Lucas Pinheiro Braathen nas Olimpíadas de Inverno não é apenas um feito esportivo. É um acontecimento simbólico. Um abalo silencioso em estruturas que, muitas vezes, insistem em sobreviver à custa do preconceito.Por Redação Catarinorte
Terça-feira, 17 de fevereiro de 2026 13:12A vitória de Lucas Pinheiro Braathen nas Olimpíadas de Inverno não é apenas um feito esportivo. É um acontecimento simbólico. Um abalo silencioso em estruturas que, muitas vezes, insistem em sobreviver à custa do preconceito.
Norueguês de nascimento, formado sob o rigor técnico e climático de um país tradicional nas modalidades de gelo, Lucas Pinheiro Braathen foi discriminado em sua própria federação, talvez, em virtude de sua origem. Não por falta de talento. Não por deficiência técnica. Mas por aquilo que, paradoxalmente, deveria enriquecer o esporte: sua identidade plural.
Diante da barreira invisível — e estrutural —, tomou uma decisão corajosa: competir pelo Brasil. Um país de verão esplêndido, de praias extensas, de sol abundante. Um país que revela gênios no futebol, campeões na Fórmula 1, artistas sobre rodas no skate, mas que sequer possui tradição na neve.
E foi justamente aí que a história ganhou densidade poética.
Ao conquistar o ouro nas Olimpíadas de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen produziu uma imagem quase surreal: um brasileiro no topo do pódio gelado, envolto em um frio que não pertence à sua paisagem tropical. Um ouro gélido, incrivelmente brilhante, que fez parar um país acostumado ao calor — climático e humano.
Mais do que medalha, foi um gesto político. Não no sentido partidário, mas civilizatório. O esporte, que deveria ser território de mérito e excelência, ainda carrega fronteiras invisíveis. O caso de Lucas Pinheiro Braathen expõe como estruturas tradicionais podem se fechar à diversidade, mesmo quando ela é sinônimo de talento.
Há uma dialética poderosa nesse episódio: o frio que exclui e o calor que acolhe; a tradição que discrimina e a ousadia que reinventa; a neve que rejeita e o verão que abraça.
Lucas Pinheiro Braathen, frio e calculista como se espera de um atleta moldado na Noruega, é também brasileiro de verões imprevisíveis. Sua vitória mostra que identidade não é jaula geográfica. É escolha. É pertencimento. É liberdade.
E talvez essa seja a medalha maior: provar que excelência não tem clima fixo, nem nacionalidade única. Quando o mérito encontra coragem, até o gelo derrete.
O ouro de Lucas Pinheiro Braathen não é apenas metálico. É moral. E brilha muito além do inverno.